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Belo Horizonte (280 km):
BR-381 (Fernão Dias) sentido São Paulo. Após passar pela cidade de Carmo da Cachoeira pegar o retorno, passar pelo posto Novo Rio, percorrer aproximadamente mais 1 km e entrar à direita, seguindo por mais um trecho de aproximadamente 20 km, chegando em São Bento Abade. Nos 20 km finais da rota (rodovia Fernão Dias – São Bento Abade) a estrada é de terra, mas em boas condições de tráfego. Se preferir utilizar somente rodovias estradas pavimentadas, é necessário seguir até a cidade de Três Corações e de lá pegar sentido São Bento Abade pela MG-862, aumentando para 320 km o percurso.

São Paulo (333 km):
BR-381 (Fernão Dias) sentido Belo Horizonte. Após passar a entrada para Campanha, seguir mais 23 km e entrar em Três Corações, pegar a MG-862, percorrendo mais 28 até São Bento Abade.

Rio de Janeiro (480 km):
BR-116 (Presidente Dutra) sentido São Paulo, após passar pelo pedágio de Itatiaia, percorrer mais 10 km e pegar a BR-354, sentido Minas Gerais. Passar por Engenheiro Passos, ainda no estado do Rio de Janeiro, e Itamonte, a primeira cidade de Minas após a divisa. Seguir até a cidade de Caxambu, pegar para Cambuquira e seguir para Três Corações. Pegar a MG-862 e percorrer 28 km até São Bento Abade.

Como chegar de ônibus:

Consultar os horários na página
http://www.trectur.com.br/horarios.html (intermunicipal).

Obs.:
- A empresa que faz o transporte de passageiros para São Bento Abade é a TRECTUR, mas os bilhetes são comprados nos guichês da empresa Gardênia.
- A cidade de São Bento Abade possui terminal rodoviário, que fica na Avenida Miguel Nassar, ao lado do prédio da prefeitura municipal.

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Januário Garcia Leal - O Sete Orelhas

Januário Garcia Leal, o Sete Orelhas (Jacuí, 1761 — Lava Tudo, Lages, 16 de maio de 1808) foi um dos mais terríveis facínoras do interior brasileiro, pior que Lucas da Feira, Cunduru, Antônio Silvino, Lampião et magna concomitante caterva. Quando Januário morreu, Lages pertencia à Capitania de São Paulo, só passando a pertencer à Santa Catarina, por alvará de D. João VI em 1820.

Januário Garcia Leal foi um fazendeiro que vivia na propriedade denominada Ventania, hoje no município de Alpinópolis, situada no sul de Minas Gerais, juntamente com sua família e escravos. Em 21 de janeiro de 1802, recebeu carta patente assinada pelo Capitão General da Capitania de Minas Gerais, Bernardo José de Lorena, nomeando-o como Capitão de Ordenanças do Distrito de São José e Nossa Senhora das Dores (hoje Alfenas). Sua vida foi pacata até que um acontecimento trágico a mudou definitivamente: a morte covarde de seu irmão João Garcia Leal, que foi surpreendido na localidade de São Bento Abade por sete homens e atado nu em uma árvore, onde foi assassinado a sangue frio, tendo os homicidas retirado lentamente toda a pele de seu corpo.

A burocrática justiça colonial mostrou-se absolutamente indiferente ao episódio, deixando impunes os sete irmãos que haviam perpetrado a revoltante barbárie. Foi assim que, ante a indiferença dos órgãos de repressão à criminalidade, Januário associou-se a seu irmão caçula Salvador Garcia Leal e ao tio, Mateus Luís Garcia, e, juntos, os três capitães de milícias assumiram pessoalmente a tarefa de localizar e sentenciar os autores do crime contra João Garcia Leal, dando início a uma perseguição atroz que relembrou obscuros tempos da história da humanidade, quando a justiça ainda era feita pelas próprias mãos.

A lei escolhida por Januário, chefe do bando de justiceiros privados, foi a de talião, ou seja, a morte aos matadores – com o requinte estarrecedor de se decepar uma orelha de cada criminoso, juntando-as em um macabro cordão que era publicamente exibido como troféu pelos implacáveis vingadores.

Somente depois de decepada a última orelha dos criminosos é que Januário deu-se por satisfeito. Até então, grande parte da então Capitania de Minas Gerais ficou sujeita à autoridade dos vingadores, que chegaram a desafiar magistrados e milicianos, sendo necessária a dura intervenção de Dom João VI, então Príncipe Regente de Portugal, para tentar debelar a ação dos capitães revoltados, que foram duramente perseguidos.

Segundo a tradição oral, relatada por Gustavo Barroso, o "Sete Orelhas" teria morrido em decorrência de um acidente numa porteira. A morte se deu por um trauma que, por ironia do destino, foi na região da orelha direita, fraturando-lhe o crânio e o queixo. Tal trauma ocorreu quando o capitão cercava um cavalo que pulou uma porteira de varas, vindo uma das varas a desferir-lhe o golpe fatal.

Teria sido a história de Januário Garcia Leal mais impressionante do que a do cangaceiro Lampião, como afirmado por Gustavo Barroso? O "Rei do Cangaço" atuou no Nordeste brasileiro por mais de duas décadas e se valia dos meios de comunicação da época, inclusive a fotografia, para a construção de seu próprio mito.

Quanto a Januário e seu bando, sacudiram a Capitania de Minas Gerais, sobrepondo-se às autoridades policiais e judiciárias, conquistando fama e respeito com seus impressionantes feitos, sem que precisassem contar com qualquer instrumento de propaganda. A ação dos vingadores em Minas Gerais, segundo um documento do período, colocava em risco a soberania do próprio Estado português. Mais um detalhe merece destaque: Januário Garcia Leal sempre viveu na região Sudeste do Brasil.

Detalhes biográficos e genealógicos

Januário Garcia Leal, cognominado "Sete Orelhas", foi filho de Pedro Garcia Leal (açoriano, filho de João Garcia Pinheiro e Maria Leal) e de Josefa Cordeiro Borba (nascida na freguesia de Cotia, São Paulo, filha de Inácio Diniz Caldeira e Escolástica Cordeiro Borba).

São irmãos de Januário: José Garcia Leal (n. 1755); Joaquim Garcia Leal (n. 1758); João Garcia Leal (n. 1759); Manuel Garcia Leal (n. 1763); Antônio Garcia Leal (n. 1764); Ana Garcia Leal (n. 1766); Maria Garcia Leal (n. 1767); e Salvador Garcia Leal (n. 1768).

Januário Garcia Leal foi casado com Dona Mariana Lourença de Oliveira (filha de João Lourenço de Oliveira, natural de São João del-Rei, e de Rita Rosa de Jesus, da freguesia de Nossa Senhora da Piedade da Borda do Campo), com quem teve descendência.

Nota

No início de 2006, a pesquisadora catarinense Tânia Arruda Kotchergenko localizou no Museu Histórico do Tribunal de Justiça de Santa Catarina o inventário de Januário Garcia Leal. Este documento confirmou que, à época de sua morte, Januário Garcia Leal exercia a função de mercador, tal qual seu pai, Pedro Garcia Leal. A documentação contém a carta patente original que lhe conferiu o posto de Capitão de Ordenanças do Distrito de São José e Nossa Senhora das Dores, as procurações de sua mulher e filho, declarações de testemunhas e, ainda, o exame de Corpo de Delito.

Bibliografia

RIBEIRO DE ANDRADA, Martin Francisco. Januário Garcia – O Sete Orelhas. Drama em três atos e cinco quadros. São Paulo: Typographia do Governo, 1849.

SOUZA MIRANDA, Marcos Paulo de. Jurisdição dos Capitães – A História de Januário Garcia Leal e Seu Bando. Belo Horizonte: Editora Del Rey, 2001.

SOUSA, Benefredo de. Estórias ou História do sete Orelhas?!… 1973 (Reeditado em 1997).

TEIXEIRA DE MEIRELLES, José. A Vida de Januário Garcia, o Sete orelhas.

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Janu%C3%A1rio_Garcia_Leal

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Por que preservar o Patrimônio Cultural?

Grupo de Capoeira Poder do Sol

Corporação Musical União Sãobentense

Artistas Sãobentenses

Por que preservar o Patrimônio Cultural?

O valor cultural de um bem está na capacidade de estimular a memória das pessoas historicamente vinculadas à comunidade. O Patrimônio Cultural de um povo lhe confere a sua identidade e orientação, pressupostos básicos para que possa reconhecê-lo como comunidade, inspirando valores ligados à pátria, à ética e à solidariedade, que promovem diretamente o exercício da cidadania, através de um profundo senso de lugar e de continuidade histórica.

A razão de se preservar o Patrimônio Histórico e Cultural de São Bento Abade consiste na melhoria de qualidade de vida da comunidade sãobentense e na proteção dos seus costumes e das suas manifestações culturais.
A implantação de projetos de promoção e proteção do patrimônio cultural está diretamente ligado à participação da comunidade local, que é a verdadeira responsável e guardiã de seus valores culturais, cabendo ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo às presente e futuras gerações.

Turismo Cultural

O Município de São Bento Abade possui considerável relevância cultural, por ter iniciado em sua região o marcante fato histórico brasileiro conhecido como “A Saga do Sete Orelhas”. O turismo cultural caracteriza-se como o principal segmento turístico com potencialidades na localidade. Conforme Brasil (2006) Turismo Cultural compreende as atividades turísticas relacionadas à vivência do conjunto de elementos significativos do patrimônio histórico e cultural e dos eventos culturais, valorizando e promovendo os bens materiais e imateriais da cultura. Ainda de acordo com Brasil (2006) pode-se situar a origem da relação turismo e cultura no grand tour europeu, quando os aristocratas e, mais tarde, a burguesia viajavam, principalmente para contemplar monumentos, ruínas e obras de arte dos antigos gregos e romanos.

É real que o Brasil possui um grande potencial para a exploração do Turismo Cultural, mas esse ainda é infimamente aproveitado. Mesmo assim, Minas é destaque no segmento, possuindo considerável tradição, com destaque para as cidades históricas mineiras de São João Del Rei e Tiradentes, localizadas a aproximadamente 150 km de São Bento Abade.

O turismo em São Bento ainda está incipiente, mas a localidade possui uma grande vocação para a atividade e outros fatores também contribuem para o desenvolvimento turístico como sua posição estratégica, o diferenciado patrimônio cultural imaterial, sua riqueza histórica e o real interesse da comunidade local pelo turismo.

É importante ressaltar também que a comunidade sãobentense preserva ricas manifestações culturais populares como a Corporação Musical União Sãobentense, as Folias de Reis, a Catira Sãobentense e os diversos e talentosos artistas locais, com destaque para Fernando Lima, um dos mais renomados violonistas brasileiros. Também vale lembrar os diversos eventos que acontecem no município, com destaque para a Festa do Peão Boiadeiro (outubro), a Expoleite (Julho) e o Festival Sete Orelhas (móvel).

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EVOLUÇÃO HISTÓRICA
Dados Políticos do Município de São Bento Abade

  • Nome anterior: Oratório de Campo Belo do Deserto Dourado
  • Fundador: Padre José Bento Ferreira de Toledo
  • Fundação: Data: 1752.
  • Criação: Dispositivo Legal: Decreto Lei nº 148.
    Data: 17 de dezembro de 1938.
  • Emancipação:
  • Dispositivo Legal: Decreto Lei nº 2.764.
  • Data: 30 de dezembro de 1962.
  • Comemoração:
  • Dispositivos Legais: Lei Orgânica Municipal (Parágrafo único do artigo 5º) e Lei Municipal nº 987/2009.
  • Data: 1º de março.
  • Motivo: O Decreto Lei nº 2.764 é de 30/12/1962, e a Instalação do Município de São Bento Abade se deu em 1º de março de 1963, por isso a comemoração da emancipação no dia 1º de março de cada ano. Clique no link para visualizar a ata de instalação: http://tinyurl.com/66n79e3
    Fonte: Câmara Municipal de São Bento Abade

RESUMO HISTÓRICO

No dia 21 de julho de 1674, saía de São Paulo a expedição do bandeirante1 Fernão Dias Paes Leme, denominada, aura sacra fames, a sagrada fome do ouro, esta de maior envergadura até então conhecida. Fernão Dias tinha como meta dois objetivos: encontrar esmeraldas e consequentemente ocupar o território por ele percorrido. Ficou conhecido como um dos maiores bandeirantes da história da expansão geográfica brasileira, ficando atrás somente de Antônio Raposo Tavares, que no ano de 1633 iniciou a grande invasão da região sul do país. (NOGUEIRA, 1999). Fernão Dias Paes que entre os anos de 1675 e 1678, teria liderado uma expedição e permanecido por algum tempo na Fazenda de Boa Vista, na região que posteriormente ficou conhecida como Deserto Dourado e Deserto Desnudo, tendo aí deixado alguns moradores.

A rota usada pelo bandeirante Fernão Dias Paes no ano de 1675 foi a mesma que a representação da Coroa Real Portuguesa usou para pisar pela primeira vez no solo de Minas Gerais em 1698, através do governador Arthur Sá e Menezes. Na comitiva que se formou para acompanhá-lo vieram alguns jesuítas que passaram carta a seus irmãos da Companhia de Jesus, principalmente ao Colégio da Bahia, enviando notícias de como a viagem havia transcorrido e o caminho que fizeram em direção às minas gerais.

Desde 1681, encontrava-se na Bahia um sacerdote da Companhia de Jesus, nascido em Luca, na Itália que assinava Johanes Antonius Andreonius. Veio a convite do septuagenário Padre Antônio Vieira, ascendendo-se rapidamente na hierarquia da ordem jesuítica, até o posto máximo de Reitor do Real Colégio da Bahia, como provincial. Foi o sucessor do Padre Antônio Vieira em 1697, ano em que Vieira faleceu. O padre italiano, sucessor de Antônio Vieira, era o jesuíta Antonil que como secretário do Padre Alexandre de Gusmão para os assuntos jurídicos recebia as cartas enviadas pelos companheiros que acompanharam o governador às minas. Diante das informações dos seus irmãos da Companhia de Jesus, descreveu a viagem do governador Arthur Sá e Menezes em 1698, deixando ao descoberto as riquezas existentes naquelas paragens e sob o pseudônimo de Antonil, detalhou sem medir as consequências o caminho para atingir o tesouro no que redundou na queima imediata quase total dos volumes publicados.

O caminho para as minas discorrido por ele, dizia que depois de Baependi, atingia o Rio Grande, em seguida o Rio das Mortes Pequeno para alcançar a Vila de São João Del-Rei.

Quase nada se encontra escrito a respeito dos núcleos que existiram entre o Rio Baependi e o Rio Grande, na época da descoberta das minas de ouro. Sendo que as terras entre Baependi e Rio Grande, eram que vinham sendo palmilhadas com estabelecimento de feitorias, as ditas roças que davam sustentabilidade às bandeiras que cruzavam aquele sertão paulista, pois a Capitania de São Paulo e do Rio de Janeiro se estendia até o Rio Grande, a ele pertencendo toda a bacia da margem esquerda do rio.

Em março de 1717, Dom Pedro de Almeida, o futuro Conde Assumar veio para as minas e na sua comitiva se encontrava Francisco Tavares de Brito, que foi encarregado pelo secretário da Coroa Portuguesa, o Padre Alexandre de Gusmão, de relacionar todas as roças de abastecimento que encontrasse.
Esta descrição, conhecida como Itinerário de Francisco Tavares de Brito, tornou-se um dos documentos mais importantes, pois ela apontou núcleos de mineração, pousos e roças que deram origem às atuais cidades que hoje se apresentam no “Caminho Velho3” da Estrada Real. Os núcleos entre Baependi e o Rio Grande, estavam se formando quando foi feita a descrição do “Itinerário de Francisco Tavares de Brito”. Foram estes mesmos núcleos que deram origem às cidades de São Bento Abade, lembrando o eremita Padre Bento Ferreira Vila Nova, o protagonista do segundo atalho que se deu para o Caminho Velho.

1 - A Coroa portuguesa fomentava e incentivava o espírito de aventura, onde, organizava grandes expedições de caráter oficial sob sua própria assistência e oferecia aos aventureiros pioneiros altas honrarias, mercês, além de conceder terrenos e certa quantidade de ouro e pedras preciosas aos desbravadores.

2 - A obra do jesuíta Antonil referenciada é “Cultura e Opulência do Brasil por suas drogas e por suas minas”, publicada no ano de 1711. 3 - Tinha por objetivo ligar a Capitania de São Paulo às Minas, ligando o território mineiro ao mar. Era também conhecido como Caminho de São Paulo, saía do porto de Santos e de Parati para chegar a Vila Rica e Sabará, passando antes por São João Del Rei. A viagem durava em média 60 dias, pois o seu percurso era muito extenso e acidentado. (CHAVES, 1999, 85).
No itinerário descrito por Tavares de Brito, o caminho bandeirante que se dirigia para as cabeceiras do Rio Ingaí apontou uma roça de nome Angay, uma das primeiras a suprir os que ali chegavam à procura de alimentos.

O nome angay, que significa águas do diabo ou endemoniadas, já indicava a natureza do rio, onde naquele trecho se enfurece apertado entre as serras da Bela Cruz e do Inferno, ao Sul do município de Luminárias (Carta do Brasil – Luminárias, Folha SF 23x-CIV-1-IBGE, 1975). Como descreve Pontes, “[...] o Rio Angai tem um curso muito desordenado e apresenta o medonho caldeirão conhecido com o nome de Cachoeira do Inferno ao transpor a Serra das Luminárias e a entrada da Cachoeira do Funil, verdadeiro sorvedouro, ao passar pela Serra do Campestre”. (PONTES,1970,113).

Nas proximidades da roça Angay, proveniente da força das águas nas ribanceiras, desenvolveu-se uma mineração de aluvião extensa, de onde toneladas de pedregulhos e seixos rolados ali se encontram atravessando os séculos.

O Caminho Velho seguia margeando o Ribeirão Manuel da Costa Gouvêa, denominação esta do Rio do Cervo em 1717. Nesta proximidade o religioso Frei Antônio Pacheco obteve em 1711 a sesmaria que vendeu ao português Manoel da Costa Gouvêa, passando a ser conhecida como a Paragem do Ribeirão

Boa Vista, primeiro núcleo de origem da cidade de Carmo da Cachoeira (APM, SC-09:249).

Para compreender a história da formação do município de São Bento Abade, é preciso entender as histórias das regiões circunvizinhas, pois os núcleos formados se interdependiam. Sendo que a rota dos bandeirantes, descrita por Antonil, sofreu uma grande alternação se comparada ao Itinerário de Francisco Tavares de Brito, que mencionou as diversas roças por onde passou o Conde de Assumar, em 1717.

Ao minerarem os ribeirões do Rio do Cervo, principalmente no Palmital do Cervo onde se originou a Paragem do Cervo e do Bom Caldo, os bandeirantes se dirigiram para o côncavo entre as serras da Bocaina e do Campestre onde se estabeleceu o Guarda-mor Diogo Bueno da Fonseca, cuja sesmaria denominou de Cachoeirinha, primeiro núcleo que deu origem à cidade de Itumirim. Daí seguiu em direção à barra do Rio das Mortes Pequeno, atravessando primeiro a passagem do Rio Grande, a que se chamou de Porto Macaia.

Por este tempo, por volta de 1735, surgiu na freguesia a figura de um padre de grande vulto e que se tornou vigário encomendado de Carrancas. Tratava-se do padre português, Bento Ferreira Vila Nova, natural da Freguesia de Santa Marinha da Vila Nova, bispado do Porto, filho do Capitão Manuel Nogueira e de Margarida Ferreira, irmão do Coronel José Ferreira Vila Nova. (A Voz Diocesana de 31.01.1756 In: LEFORT, 1972:57).

O Padre Bento Ferreira é considerado pela historiografia como o primeiro a habitar as terras da região, sendo o construtor da primeira ermida sob a invocação de São Bento onde administrava os sacramentos, em meados do século XVIII, na sede de sua fazenda, denominada Campo Formoso e Campo Belo. Foi o primeiro marco de fé da localidade. Na época de sua construção esta área teria pertencido à Paróquia de Nossa Senhora da Conceição das Carrancas.

A importância do Padre Bento, no contexto do povoamento da área é bastante expressiva, com provisão de Altar Portátil, ministrava o sacramento a pessoas de várias localidades, pois percorria grandes extensões de terra.

Os padres que recebiam a provisão de altar portátil, geralmente eram padres que acompanhavam os bandeirantes em suas conquistas e os capelães assim oficiavam estes descobertos como parte de um determinado bispado. O altar portátil era conduzido pelo padre que viajava por lugares muito afastados, onde era difícil para o cristão ir à procura de sacramentos. Tratava-se de uma caixa, que se transformava em altar, assim como todos os objetos para a missa, conduzida por um cavalo, dirigido por um pajem que ajudava nas missas, e em outro animal, o padre e sua pequena bagagem. Segundo Monsenhor Lefort, um dos maiores historiadores do Sul de Minas, o Padre Bento Ferreira foi um grande desbravador de terras, sendo o responsável por várias descobertas de outros caminhos em busca de ouro, abrindo a Campanha do Rio Verde, um caminho sem morros nem alagadiços, e mais curto que o conhecido Caminho Velho (LEFORT, 1972).

Senhor de muitos escravos, requereu em troca dos serviços prestados, em 1752, ao Governador da Capitania das Minas Gerais, José Antônio Gomes Freire, uma sesmaria denominada Deserto Dourado. Desta sesmaria posteriormente surgiram os núcleos que deram origem às cidades de São Bento Abade, Luminárias e Carmo da Cachoeira.

Muito antes de 1752, o Padre Bento se encontrava no exercício da sua ação caritativa, pois no auto de medição e demarcação da sesmaria de seu irmão, Coronel José Ferreira Vila Nova, na Fazenda Serra Branca, em 2.10.1751, o escrivão diz que o mesmo estava sendo feito [...] no sítio do Deserto Dourado junto ao Rio Engahi e moradas do reverendo padre Bento Ferreira, freguesia das Carrancas da Vila de São João Del - Rei, Comarca do Rio das Mortes, donde estava pousado o doutor Gaspar da Rocha Pereira, Intendente da Fazenda Real”. (MRSJDR-Cx. 13:14). Quando o Padre Bento Ferreira requereu, na mesma data, em 1752, o registro de suas terras em carta de sesmaria, ele citou que nelas havia uma passagem, que liberava de graça por canoa aqueles que quisessem atravessar o Rio Ingaí, utilizando-se do caminho que ele fizera a dispensas de ninguém, sozinho e que encurtava muito a estrada do Caminho Velho.

O padre, portanto, construiu uma vereda, expressão que se dava àquele que não era ainda do conhecimento da Coroa Portuguesa. Tornou-se o trajeto comum dos viandantes, principalmente de Campanha a São João Del-Rei. Depois de passar o Rio do Peixe, perto de Três Corações, seguia-se para Oeste, passando por Branquinho na Boa Vista (Carmo da Cachoeira) em direção à sua Fazenda Campo Formoso de onde se partia para o Ribeirão das Luminárias, alcançando a direção para São João Del-Rei, através da cava ou caveira da Venda Nova, do outro lado da Serra da Fortaleza.

O caminho a que ele se referiu sem morros nem alagadiços, era o que antes de chegar à Fazenda Serra Branca pertenceu a seu irmão e deu origem à Fazenda Pirapetinga de João Marques Padilha, por onde passou Spix e Von Martius. O alagadiço se encontrava ao passar pelo Branquinho, Joaquim José Gomes Branquinho, proprietário da Fazenda da Boa Vista, hoje Carmo da Cachoeira.

O Pe. Bento Ferreira faleceu em Jaguará, termo da Vila de São José, na Comarca do Rio das Mortes no ano de 1784 deixando um enorme latifúndio em testamento, sendo a metade de seus bens como patrimônio da Capela, como descreve em seu inventário post-mortem iniciado na Vila de São João Del- Rei tendo como inventariante o Capitão Antônio José Ferreira. Declarou o inventariante que o Padre Bento Ferreira faleceu com seu solene testamento no Jaguará, termo da Vila de São José, desta Comarca do Rio das Mortes. Com relação aos bens e dívida ativa, devia “[...] o inventariante Capitão Antônio José Ferreira, ao testador Padre Bento Ferreira, por uma escritura de compra da Fazenda do testador chamado o Campo Belo, com todos os seus pertences e os mais bens que da mesma constara, cuja compra, fez em vida ao Padre testado por 3:200$000”. (MRegional.SJDR-1784Cx).

O Padre Bento Ferreira foi sepultado na própria Igreja-sede, conforme os costumes da época. Alguns anos depois, a capela de Ermida passou a ser denominada Capela de São Bento.

As primeiras notícias acerca das terras em que hoje situa o município de São Bento Abade datam de 1752, com a sesmaria denominada Deserto Dourado, concedida ao Padre José Bento Ferreira de Toledo nesse mesmo ano. Teria ele sido o primeiro homem civilizado a habitar a região e uma capela por ele construída em sua fazenda, denominada Campo Formoso e Campo Belo, como era conhecida, foi o primeiro marco de fé da localidade. Esta área teria pertencido à Paróquia de Nossa Senhora da Conceição das Carrancas, àquela época.

O Sacerdote ali se fixou para a catequização de índios e exploração agropastoril de sesmaria que lhe foi concedida. Em meados do século XVIII construiu a capela de São Bento, dotando-a de um patrimônio. Em 1752 é instalada a sede da Fazenda São Bento do Campo Belo, onde hoje se localiza o município de São Bento Abade.

Na época da ocupação feita pelo Pe. Bento Ferreira naquelas terras, várias famílias se fixaram ali, atraídas na época pela mineração do Ouro e pela fertilidade das terras propícias à agricultura e pecuária, atividades que até hoje predominam na economia do município. A história conta que em 1794, foi construída a primeira casa do povoado pelo Sr. Manoel Francisco Ferreira. Em seguida instalou-se no povoado o Capitão Manoel Álvares, seguido de outras famílias, aumentando consequentemente o núcleo populacional. Não se tem informações precisas sobre a data de fundação da 1ª Capela, mas segundo o livro do tombo da Igreja Matriz São Bento Abade de (1925–1995), esta data é aproximadamente em torno do ano de 1700.

Segundo o livro de tombo, é descrito o seguinte fato:
“A Capela estava no meio do mato e momento esse aproveitada para cemitério, não só dentro como fora, 4 metros em roda, como se vê de vestígios de muros (...) nas proximidades da capela havia uma figueira monstruosa, e vestígio de casa, bem como de porta, pois ainda hoje (1920), existe lá “Bojiticaleinas” que proviam ser do tempo do fundador Pe. Bento Ferreira, porque o desenvolvimento destas árvores é muito lento e também de muita duração (...) em 1911 tiveram necessidade de edificar um novo cemitério, ponto escolhido pelo pároquo Nery e para isso foi preciso contrair um empréstimo ao Sr. Adelino José Ferreira, que era pago pelo rendimento e depois o resto por uma “ Campra Perpétua” ou “Compra Perpétua”. Estiveram vários procuradores do patrimônio, como Aurélio Nadur, que prestava contas ao reverendíssimo Cônego César, vigário de Três Corações e encarregado desta paróquia, e assim sumiram com o livro ou assentos de receita e despesas. Após Aurélio Nadur, o próximo procurador foi o Cel. Domingos Ribeiro de Rezende, e este tinha lá um encarregado: José Virgínio, que tido, recebia como aforamento as posses, arrendas de pastos e receita do Cemitério4”.
Em 1916, Pe. João Paiva de Amaral, tomando posse da paróquia de Carmo da Cachoeira e estando anexa a esta Capela, a de São Bento, relatou no livro de tombo: “(...) sei que estava indo tudo muito mal desorganizado e muitas pessoas se queixavam que ganhavam nada para consertar a capela nem pagariam as suas arrendas porque não sabiam para quem ia esse dinheiro e que o dito José Virgínio cortava madeiras, vendia e utilizava-se do patrimônio como propriedade sua. Em vista disso pedi ao Cel. Domingos Ribeiro de Rezende que me entregasse o patrimônio com a o fim de concertar a capela ou fazer outra com rendimento dele, o que de boa vontade me cedeu. Em 1917, organizei uma comissão como consta no livro desta paróquia sendo presidente, eu, Pe. João Paiva do Amaral, vigário, secretário Antônio José Ferreira, tesoureiro João Vilela Rezende, Anjarias João Procópio e Augusto Marciano da Costa, todos esses de boa vontade aceitaram e o Sr. Bispo D. João Almeida Farrão concedeu o alvará. Começamos por tirar os livros e todos os poderes do Sr. José Virgínio e fizemos novos arrendas com tabelas como se vê no livro competente e assim com estas rendas pagamos uma dívida ao advogado da questão que ainda lhe restavam que foi de 1500$, como consta do livro da fabricada capela de São Bento. Em 1919, fomos obrigados a reconstruir o cemitério por que uma tempestade que por lá passou derrubou alguns muros bem como muitas casas do arraial e como tivesse necessidade de aumentá-lo, aproveitamos esta ocasião onde se gastou bastante. Assim consta no livro de contas. A capela foi, em1917, visitada pelo reverendíssimo Bispo, como consta o livro de tombo de Carmo da Cachoeira e sua excmª. disse que a capela precisava ser edificada, mas até esta data foi impossível porque depende de haver fundos para levar a Calia Talismã, os parâmetros lá existentes foram ofertados por fazendeiros que já as possuíam, bem como toalhas etc. Finalmente ter custado muito pôr as coisas no eixo porque o povo estava muito mal habituado e por isso não querem pagar os aforamentos das posses e arrendas. Em 1920, o Sr. João Procópio deu um pequeno gazamento que possuía e foi instalado na capela onde ficava bem iluminada por dentro e por fora5.” A segunda referência encontrada a respeito da capela de São Bento foi registrada no documento das Visitas Pastorais de Dom Frei José da Santíssima Trindade, registro da passagem do Bispo de Mariana pela capela entre os anos de 1821 e 1825: “A capela de São Bento do Campo Belo, hoje a cargo do pároco de Carrancas, e que o de Lavras quer que lhe pertença e os mesmos povos do rio que divide a de Lavras com a de Carrancas, dista de Lavras sete léguas e meia, e de Carrancas nove e meia; antes desta desmembração tinha 850 aplicados e hoje só tem 214 e 21 fogos. Os antigos e aplicados da dita capela (inclusos os paroquianos de Lavras) que estão mais remotos, distam 3 léguas e meia; todos os mais vão minguando progressivamente em distância. Não tem capelão há mais de 5 anos; dizem ser o motivo, 1°porque estando encravada em terras da fazenda denominada Campo Belo, os possuidores dela temem a sua frequência por não se verem na precisão do aldeamento e povoação do lugar. 2° por estar repartido para duas matrizes o povo que fazia a sua aplicação. 3°por falta de sacerdotes. 4° porque tendo essa capela certo patrimônio a que está responsável (dizem) o capitão Manuel Joaquim Álvares dessa aplicação ou vizinho dela por seu antecessor, se torna talvez mais estimável o silencio dessa dita capela. Os antigos aplicados pertencentes à freguesia de Lavras montam hoje ao número de 1. 836.” E ao final do século XIX, a situação de abandono da capela, apresentava-se como cenário desolador aos olhos de José Teixeira Meirelles, que, visitando a área, deixou o seguinte registro: “É um vasto templo edificado num planalto limitado por dois córregos orlados de espesso mato. É esta igreja o único edifício daquele sítio. Dizem os antigos que houve outrora ali uma importante fazenda de criar pertencente a um venerando sacerdote por nome padre Bento, o qual com seu trabalho e as expensas suas fez construir esse templo, indicando-o a São Bento, santo de seu nome, cuja imagem ainda existe. Os muros e os sinais que ali ainda perduram atestam a importância dessa extinta fazenda. Tudo isto dá um aspecto curioso à igreja, único edifício que tem resistido à esponja destruidora do tempo. (...)causa tristeza ver esse templo em tão grande abandono! Dirse-ia que algum terrível anátema fora lançado nesse sítio, destruindo todas as casas e poupando somente a casa de Deus”. (...) “O confeccionador destas linhas visitou o templo de São Bento e causou-lhe muita tristeza vendo-o sem uma humilde choupana sequer nos seus arredores. Ouve-se somente o canto de um ou outro pássaro que ali esvoaça. A igreja tem por zelador um homem idoso e esquisito de nome Ignácio Lopes que é abundante em pilherias e em narrar fatos antigos. (...), que mora distante dela”. (MEIRELLES, 1922). A atual Matriz de São Bento talvez seja o quarto templo, construído no mesmo local, em culto expressivo de anos de tradição. A religião predominante é a Católica, sendo festejado anualmente com grande festa o padroeiro da cidade, “São Bento, no dia 1º de Março”. Diz-se ainda que, frequentemente, nos primeiros domingos de cada mês, o vigário de Nossa Senhora de Cachoeira do Carmo – hoje município de Carmo da Cachoeira – povoado mais próximo, era convidado, pelos habitantes mais próximos, para celebrar a missa, única ocasião em que a área ficava movimentada.

Com relação à divisão territorial de Minas Gerais e a formação da freguesia de São Bento Abade, esta ocorreu durante o período colonial, primeiro em terras de Ouro Preto (capital da província), de onde se desmembrou São João Del Rei, em 1713. Durante o século XIX, novas e sucessivas divisões, faziam aumentar o número de cidades, e, ao mesmo tempo, diminuir as áreas desmembradas dos municípios mais antigos; o Império lançava então as bases de sua administração, aumentando a divisão territorial com vistas a um melhor controle da área. Lavras foi o município criado em 1831, com seu território desmembrado de São João Del Rei. De Lavras, em 1841, desmembrou-se Três Pontas e daí Varginha, em 1881. As próximas divisões aconteceriam sob os auspícios da Republica: Carmo da Cachoeira, desmembrado do território de Varginha em 1938 e finalmente nossa área alvo: São Bento Abade, transformado em distrito de Carmo da Cachoeira na época de sua emancipação.

O povoado foi elevado a distrito pelo Advento de Decreto Lei 148 de dezembro de 1938, com denominação de São Bento, pertencendo a Carmo da Cachoeira. Em 31 de dezembro de 1945 teve seu nome mudado para Eremita e, finalmente, por intermédio da Lei 2.764 de 30 de dezembro de 1962, foi criado o Município com denominação de São Bento Abade e seu território foi desmembrado de Carmo da Cachoeira. A origem toponímica do município se deve à devoção do seu povoado ao eremita São Bento, a quem o Padre José Bento chegou a dedicar uma capela construída na fazenda Campo Belo. Mais tarde o povoado de São Bento, conservando esse nome, quando passou a distrito. Entretanto foi emancipado com a denominação de São Bento Abade a fim de distingui-lo daqueles municípios cujos nomes eram semelhantes. (BARBOSA, 1971,446-447).
Segundo a tradição oral de São Bento Abade, no final do século XVIII e início do século XIX, teria ocorrido na região a saga do lendário Januário Garcia Leal, herói vingador e principal protagonista da história.

Januário Garcia Leal, (o lendário “Sete Orelhas”), nasceu em Jacuí, sul de Minas Gerais, por volta de 1761 e faleceu em Lava Tudo, Lages, no estado de Santa Catarina no ano de 1808. Apesar de ter vivido sempre na região sudeste do país, especificamente em Minas Gerais. Era filho de Pedro Garcia Leal (açoriano, filho de João Garcia Pinheiro e Maria Leal) e de Josefa Cordeiro Borba (nascida na Freguesia de Cotia - SP, filha de Inácio Diniz Caldeira e Escolástica Cordeiro Borba). Januário provinha de uma importante família e estava rodeado de familiares também não menos importantes aos olhos da administração colonial portuguesa. Foi casada com Dona Mariana Lourença de Oliveira (filha de João Lourenço de Oliveira, natural de São João Del-Rei, e de Rita Rosa de Jesus, da Freguesia de Nossa Senhora da Piedade da Borda do Campo), com quem teve descendência.
Em 21 de janeiro de 1802, Januário recebeu carta patente assinada pelo Capitão General da Capitania de Minas Gerais, Bernardo José de Lorena, nomeando-o como Capitão de Ordenanças do Distrito de São José e Nossa Senhora das Dores. Até esta época Januário era um pacato fazendeiro, que vivia na propriedade denominada Ventania, situada no Sul de Minas Gerais, juntamente com sua família e escravos. Tinha uma vida comum a de todos de seu tempo, até que um acontecimento trágico mudara definitivamente os rumos de seu destino: a morte covarde de seu irmão João Garcia Leal, que foi surpreendido na localidade de São Bento Abade por sete homens e atado nu em uma árvore, onde foi assassinado a sangue frio, tendo os homicidas, retirado lentamente toda a pele de seu corpo.

Na época, a burocrática justiça colonial mostrou-se absolutamente indiferente ao episódio, deixando impunes os sete irmãos que haviam perpetrado a revoltante barbárie. Ante o indiferentismo dos ineficientes órgãos de repressão à criminalidade, Januário associou-se a seu irmão caçula Salvador Garcia Leal e ao tio Mateus Luiz Garcia e os três capitães de milícias assumiram pessoalmente a tarefa de localizar e sentenciar os autores do horrendo crime, dando início a uma perseguição atroz, relembrando obscuros tempos da história da humanidade, quando a justiça ainda era feita pelas próprias mãos. A lei escolhida por Januário, chefe do bando de justiceiros privados, foi a de Talião – morte aos matadores – com o requinte estarrecedor de se decepar uma orelha de cada criminoso, juntando-as em um macabro cordão que era publicamente exibido como troféu pelos implacáveis vingadores. Somente depois de decepada a última orelha dos criminosos é que Januário deu-se por satisfeito. Segundo a tradição oral de São Bento Abade, Januário Garcia Leal, o alcunhado “Sete Orelhas”, teria sido considerado um dos mais terríveis facínoras de Minas Gerais, sendo sua história comparada a do lendário cangaceiro Lampião. É importante frisar que o “Rei do Cangaço” atuou no Nordeste Brasileiro, em uma época e em um contexto completamente diferentes da realidade mineira. No entanto, Januário e seu bando sacudiram a Capitania de Minas Gerais, se sobrepondo às autoridades policiais e judiciárias, conquistando fama e respeito com seus impressionantes feitos, o que de fato o consolidou como um “herói”, um triunfo importante para a construção de seu próprio mito. (SOUZA, 1973).

No século XIX, várias famílias passaram a povoar a região do Tira Couro, atraídas pela mineração do ouro e pela fertilidade das terras propícias à agricultura e pecuária, ficando a região no entorno da Fazenda São Bento do Campo Formoso pouco povoada, uma vez que seus proprietários temiam o povoamento do local, segundo Frei José da Santíssima Trindade que visitou o local entre os de 1821 e 1825. Este fato contraria a regra geral de desenvolvimento das povoações mineiras, que tinha como principal característica a Igreja como elemento aglutinador.
Em 1831, o município de Lavras foi criado, sendo seu território desmembrado de São João Del Rei. De Lavras, em 1841, desmembraram-se Três Pontas e daí Varginha, em 1881. As próximas divisões aconteceriam sob os auspícios da Republica: Carmo da Cachoeira, desmembrado do território de Varginha em 1938 e finalmente São Bento Abade, transformado em distrito de Carmo da Cachoeira pelo Decreto lei 148 de Dezembro de 1938, com a denominação de São Bento.

Em Dezembro de 1945, teve seu nome mudado para Eremita e, finalmente, por intermédio da lei 2.764 de 30 de Dezembro de 1962, criou-se o município com denominação de São Bento Abade e seu território foram desmembrados de Carmo da Cachoeira.

Em 1963 foi comissionado à função de intendente Municipal pela lei 2.764, o Sr. Estácio de Sá Vilela, que administrou o município de 01 de Março a 23 de agosto do mesmo ano, passando o cargo a Flávio Fachardo Junqueira, prefeito eleito, que administrou a cidade de 1963 a 1967.
Segundo relatos de antigos moradores da cidade, enquanto Distrito de Carmo da Cachoeira, São Bento era apenas um pequeno povoado com aproximadamente 120 casas com iluminação a motor e sem fornecimento de água encanada, esta era retirada de chafarizes localizados nas ruas. O arraial era dividido em apenas três ruas, sendo elas a Avenida Miguel Nassar, a Rua João Vilela e a Rua Padre Bento Ferreira. O crescimento populacional também foi lento até a década de 1950, quando contava com 461 habitantes, sendo 234 do sexo masculino e 227 do sexo feminino. Vinte anos depois, de acordo com o censo de 1970, somavam-se 1.491 habitantes, sendo 727 na zona urbana e 746 na zona rural. Na década seguinte, 1980, o número de habitantes aumentou expressivamente na zona urbana: eram agora 1.172 e teve leve diminuição na zona rural. Daí em diante, houve um sensível decréscimo em relação à população de zona rural e aumento em relação à população da zona urbana. Isso certamente se deve ao fato da Prefeitura Municipal, depois da emancipação, ter doado lotes durante certo período de tempo, com a condição do beneficiado, construir em prazo determinado. Na década de 1990, mais precisamente em 1991, o numero da população urbana havia quase dobrado enquanto a da zona rural diminuía quase pela metade. Eram agora 2.175 habitantes no primeiro e 381 no segundo, num total de 2.556 habitantes. Em 2000, a zona urbana contava 3.453 e a rural 284, somando 3.737 habitantes. Atualmente, de acordo com dados do IBGE, São Bento Abade abriga aproximadamente 4.281 habitantes, sendo que uma média de somente 295 habitantes na zona rural e o restante na zona urbana.

O desenvolvimento econômico de São Bento Abade está relacionado com a pecuária e agricultura, com destaque para as produções de feijão, café, batata inglesa, cana de açúcar, arroz, mandioca e milho, que a partir de 1985 recebeu grande incentivo tecnológico, o que lhe rendeu no ano de 2004, o título de maior produtor agrícola em menor área. A pecuária leiteira também é de grande importância econômica para o município, os milhares de litros de leite produzidos são utilizados para a fabricação de queijo e outros derivados pelo laticínio local, e o excedente enviado para as cidades vizinhas.
O ensino também foi beneficiado com a emancipação. Em 1963, foi inaugurada a “Instrução”, escola que funcionava em um salão, onde as crianças podiam estudar até a terceira serie primaria e, caso desejassem continuar, tinham que ir a Carmo da Cachoeira para fazer as demais séries. A escola localizava no pavimento superior da antiga cadeia do município, na Avenida Miguel Nassar esquina com Rua Odilon G. dos Santos. Mais tarde, o local passou a ser da Prefeitura, e a mesma foi transferida para onde é hoje a Casa do Sr. Vitor Sinésio.

Maria das Graças Menezes Mourão

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SÃO BENTO ABADE - MG

Localizada no Sul de Minas Gerais, São Bento Abade é uma pequena e charmosa cidade de aproximadamente 5.000 habitantes. O primeiro habitante do lugar foi o padre Bento Ferreira, que ali se fixou para catequizar os índios, tendo construído uma capela em meados do século XVIII e, em 1752, instalado a sede da fazenda São Bento do Campo Belo. Em 1794, após o falecimento do padre, Manoel Franscisco Ferreira constrói a primeira casa e logo o povoado se desenvolve, sendo elevado a distrito em 1938, com a denominação de São Bento. Em 1962 emancipa-se com o nome de São Bento Abade, devido à devoção que o fundador dedicava ao eremita São Bento. A economia da cidade se baseia principalmente na agricultura e na pecuária leiteira e o turismo cultural tem despontado como uma relevante alternativa para a comunidade.

Detentor de um rico patrimônio cultural, o município foi palco de uma das mais conhecidas tragédias do período colonial brasileiro, o assassinato do fazendeiro João Garcia Leal, que teve sua pele arrancada por sete irmãos enquanto ainda estava vivo, no local onde era a Fazenda Campo Formoso. Em honra e justiça pela morte de João, seu irmão, Januário Garcia Leal, deu início à perseguição dos criminosos, fato histórico que ficou conhecido como a “Saga do Sete Orelhas”. Januário matou os sete irmãos e como prova dos feitos ele cortava uma das orelhas da vítima e a exibia em um cordão.

Até hoje existe no local onde João Garcia foi assassinado a figueira em que ele foi dependurado e seu entorno é tombado pelo Conselho Municipal do Patrimônio Cultural. Além desse relevante e curioso fato histórico, São Bento Abade também se orgulha de possuir diversas manifestações culturais como o grupo de catira, as folias de reis, seus violeiros, e de ser filho da terra um dos maiores violonistas do Brasil, o jovem Fernando Lima.

Conheça a encantadora e hospitaleira São Bento Abade, a cidade que respira cultura.

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